Segunda-feira, 6 de Junho de 2016
PJ emergiu «to bring us her love»

Ainda que não seja polígamo, por entre a música que ouço nos tempos que correm há cinco mulheres que me mantêm fascinado: Aimee Mann, Beth Gibbons, Cat Power, Joanna Newsom, PJ Harvey. Polly Jean Harvey é porventura a relação com uma raiz mais profunda (poderia ser Beth Gibbons, se o encantamento radicasse em «Dummy», dos Portishead, e, na verdade, radica em «Out of Season»). Em «Down by the Water», de «To bring you my love» (1995), Polly Jean não se insinua, a sua voz ataca diretamente a presa e não permite qualquer resistência. Os álbuns seguintes atenuam o flirt com os blues, mas não desviam PJ de um rock construído entre provocação e encantamento. A penúltima obra - «Let England Shake» - reforça uma tonalidade elegíaca e analógica de uma obra que respira e, ao mesmo tempo, se afasta do seu tempo e «The Hope Six Demolition Project» confirma esta tonalidade. No Primavera Sound, no Porto, reencontro-a ao vivo e espero que o adjetivo «memorável» seja insuficiente.



publicado por Zorro Danado às 15:45
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Sexta-feira, 22 de Abril de 2016
Prince - «Some say a man ain't happy unless a man truly dies»

Corria o ano de 1987 e, com 13 anos, era um adolescente atreito a impressões fortes. É neste ano que me confronto (e me impressiono) com o apelo desarmante do single Sign 'O' the times. A simplicidade musical e lírica da música é projetada num videoclip pontuado também pela simplicidade e povoado pelos versos que transpiram um certo ressaibo social. É evidente que esta aparente simplicidade ganha contornos de equívoco na obra de um artista que sobretudo se afirmou pelas vias da excentricidade, da fusão e da provocação. Distanciei-me na década de 90 da obra de Prince, porventura envergonhado desta música que fazia bater o pé, e perdi-lhe o rasto no século XXI. No entanto, quando regresso, é o álbum Sign 'O' the times que se impõe e a verdade é que há por aqui ideias musicais mais frescas do que em grande parte da música que por aí anda. Façam o favor de (re)ouvir, para além do single, The ballad of Dorothy Parker, Starfish and coffee, Strange relationship, I could never take the place of your man ou The cross.



publicado por Zorro Danado às 17:09
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Quarta-feira, 16 de Dezembro de 2015
Colheita de 2015 - I

O crepúsculo de 2015 segue ameno e impõe-se a colheita.

1. O trágico conflito que ensaguenta o século XXI andou pelas bulevares parisienses em 2015 e o terror, de novo, assaltou o quotidiano do cidadão anónimo, que paga um preço exorbitante de uma dívida que não lhe diz respeito.

2. O ano que ainda corre lembrou a efemeridade dos governos. O governo dos «usurpadores» sucedeu ao governo que quis que o nosso país acreditasse que o único caminho é exaurir a classe média e manter o contentamento dos mercados e dos pseudoinvestidores. De Passos e Portas não rezará a História, de Costa provavelmente também não.

3. As viagens de urbano para Gaia alimentaram um leitor cada vez mais conservador. As incursões para além da prosa e da poesia portuguesa do século XX, vão rareando e, neste sentido, de novo as páginas de Aquilino («Volfrâmio»), Mário de Carvalho («Novelas Extravagantes»), Torga («Contos e Novos Contos da Montanha» e «Senhor Ventura»), Sena («Antigas e Novas Andanças do Demónio»), Cardoso Pires («Balada da Praia dos Cães»), Lobo Antunes («Segundo Livro de Crónicas»), Agustina («Fanny Owen») e Vasco Graça Moura («Poesia Reunida»). Para além do conservadorismo e deste rol de companhias recomendáveis, «A Condição Humana», de Malraux (traduzido e prefaciado por Sena) e as «Crónicas», de Dylan.

 



publicado por Zorro Danado às 15:32
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Quarta-feira, 17 de Junho de 2015
Sacrifício, garantias, causas e efemeridade

Corre junho, insinua-se o verão e a indigência que impõe a divagação:

1. Raiz do que somos, a Grécia transfigurou-se em bomba-relógio que ameaça estilhaçar a Europa que conhecemos. Tsipras fez um sacrifíco aos deuses e estes revelaram-lhe a faceta demoníaca do FMI. Talvez não fosse necessário o sacrifício.

2. Por cá, na cabeça da Europa, as promessas foram rasgadas. O povo português confronta-se agora com as garantias da coligação Passos & Portas, com as causas do Costa e com as dívidas por pagar. Os avisos externos multiplicam-se: o desvio da austeridade salvífica será trágico, é necessário continuar a cortar, sobretudo naqueles que ainda não devolveram as casas aos bancos. 2015 é um labirinto. A saída pelo lado da coligação é uma garantia de continuidade da incompetência, da falta de transparência, do corte cego na despesa, de perseguição da classe média. A saída pelo lado socialista desenha-se como uma ameaça de regresso à incompetência anterior a este governo, à desgovernação, ao delírio das grandes obras.

3. Jorge Jesus fez as malas e partiu. A viagem foi curta. Mudou-se para Alvalade. A euforia encarnada após a conquista do bicampeonato transformou-se em ressentimento, que é injusto. A miséria sportinguista, atenuada parcialmente pela Taça de Portugal, transformou-se em euforia. O futebol é uma contínua reflexão sobre o conceito de efemeridade.



publicado por Zorro Danado às 10:33
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Domingo, 28 de Dezembro de 2014
Colheita de 2014 (apêndice)

Eis o que me irritou de modo mais acutilante em 2014.

1. A bandeira portuguesa na lapela do casaco do Coelho e a evidência de mais um ciclo legislativo irrevogavelmente perdido.

2. A merda de cão nos passeios de Aveiro e Gaia que me obriga a caminhar com o olhar no percurso dos meus pés.

3. Entre a PACC e os concursos de colocação de docentes, o desvario.

4. As carvalhices do Bruno - após os tiros de pólvora seca em todas as direções, o tiro no pé.

5. A ópera bufa em que se tornou a discussão de final de ano: CR ou Messi?



publicado por Zorro Danado às 16:39
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Terça-feira, 23 de Dezembro de 2014
Colheita de 2014 (uma sombra e algumas luzes)

Vislumbra-se 2015 e impõe-se a memória de 2014.

1. O recluso 44 do estabelecimento prisional de Évora é uma trágica evidência do pântano que nos engole. A descrença de um país no bando de oportunistas que ciclicamente assola o Palácio de São Bento e imediações enraíza-se e pontua o limbo em que Portugal se encontra.

2. Os festejos portistas e sportinguistas em 2014 concentraram-se nas derrotas do Benfica nas competições internacionais, o que diz tudo sobre a supremacia encarnada pelo território indígena. Não vai ser fácil voltar a ver o ataque do Benfica agitado por jogadores do calibre de Enzo, Gaitán, Markovic, Lima e Rodrigo.

3. Por entre tintos e brancos (e rosés), um autor impressionou: Anselmo Mendes. Um discurso que respira vinho, vinhos que inspiram discursos - experimentem o Curtimenta 2011 ou o Parcela Única 2012. A leste, o Douro e no segundo semestre de 2014 reforcei o meu entusiasmo pelos tintos Poeira e pela Quinta da Casa Amarela, em particular o Poeira 2011 e o Quinta da Casa Amarela Reserva Tinto 2011.

4. No reino da sétima arte, é verdade que recentemente me diverti com o JA a ver o delírio de «Penguins of Madagascar», porém, foi em «The Grand Budapest Hotel», de Wes Anderson, que me reencontrei com a essência do cinema e foi em «The Wolf of Wall Street» que constatei um novo fôlego de Scorsese.

5. Na música e na literatura, 2014 constituiu-se como mais uma etapa nas minhas empatias artísticas - Cave e Lanegan nas notas, Aquilino e Mário de Carvalho nas letras.



publicado por Zorro Danado às 19:32
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Quinta-feira, 20 de Novembro de 2014
A chuva, um homem saudável, os bonifrates, os humilhados

1. Há longo tempo que não blogo e entretanto choveu.

2. Deitar cedo e cedo erguer, de acordo com a vox populi, dá saúde. Os sessenta e cinco quilómetros que me separam do meu local de trabalho tornaram-me um homem saudável e divorciaram-me positivamente da pseudorrealidade fabricada pela comunicação social, do naufrágio de um país incapaz de despejar uma elite que, apesar de rasgar todos compromissos assumidos com uma sociedade exangue, delirantemente se reconhece legitimada pelo voto popular.

3. A demissão de Miguel Macedo, como todas as demissões de senhores ministros e secretários de estado nesta coutada, é mais uma evidência do pântano. Travestida como exercício de honorabilidade do responsável político, não passa de mais uma exalação deste odor pútrido que envolve uma classe que corporativamente se eterniza no poder através da encenação de um conflito que tem como bonifrates PSD e PS.

4. Celebrada pelo salazarismo, a nossa brandura tem dado imenso jeito aos governantes de um país onde, como decretou a nossa ministra das finanças, não abundam os ricos. No entanto, não se iludam, os «[...] humilhados, pela noite, / Para a vingança aguçam os punhais.»



publicado por Zorro Danado às 16:14
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Segunda-feira, 9 de Junho de 2014
Brasil 2014 - notas mais ou menos nostálgicas

  1. Dizem que o futebol nasceu em terras britânicas e a etimologia certifica-o. No entanto, compreendendo o nascimento como um fenómeno físico, o futebol cruzou o oceano Atlântico e renasceu como arte no Brasil.

  2. A magia do futebol para mim estará sempre enraizada na seleção brasileira do mundial de 1982. A par do Naranjito, continuam gravados na minha memória a magia com a bola nos pés de Falcão, Sócrates, Zico e Éder e o ressaibo da derrota da melhor seleção de sempre pela cínica Itália.

  3. O mundial de 2014 reconduz-nos a um país que é um continente em ebulição. A exposição mediática abrange o apelo do futebol, do carnaval, do samba, da praia, da selva, da picanha e da maminha, da lima e da aguardente de cana, mas também o negrume da favela, da marginalidade, da miséria, do conflito social, da desigualdade. Esta perplexidade ganha fôlego no Rio de Janeiro, uma cidade que encanta e desorienta pela beleza do oceano que namora a praia, pela dimensão dos morros, pelo ritmo que circula pelas ruas (e que me traz sempre à memória o bar Carioca da Gema).

  4. A seleção brasileira de Felipão será uma espécie de receita requentada que tornou possível a conquista da taça no paupérrimo e atípico mundial de 2002 - fiabilidade defensiva e um meio-campo trabalhador que permita a libertação dos jogadores decisivos no ataque -, ou seja, é melhor ganhar sem génio do que perder espalhando magia (como aconteceu em 1982). Sem Neymar, este Brasil seria um triste reflexo de outras seleções.

  5. De entre o Brasil, a Argentina, a Alemanha e a Espanha sairá o provável campeão. Menos prováveis serão o Uruguai, a Itália, a França, a Holanda, a Inglaterra ou, permitam-me o delírio nacionalista, Portugal.

  6. A seleção portuguesa é incontornavelmente a fórmula CR + 10. Sem Cristiano Ronaldo, somos uma espécie de fogo-fátuo. Com ele, surgem os holofotes.



publicado por Zorro Danado às 16:06
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Sexta-feira, 16 de Maio de 2014
2 breves notas (ainda a ressaca de Turim)
1. A noite de quarta-feira foi pontuada pela incompetência. A incompetência da equipa do Benfica, incapaz de se equilibrar após a saída Sulejmani, de explorar as fragilidades defensivas do Sevilha, de concluir com acerto as oportunidades criadas. A incompetência de uma equipa de arbitragem, que fechou os olhos quando a bola se aproximava da baliza do Sevilha.
2. Na ressaca de Turim, percebemos que na extremidade ocidental da Península Ibérica se aguçavam as facas e nas redes sociais celebraram-se as imagens do Marquês vazio e do JJ a conduzir um trator carregado de melancias. Uma vez mais no mês de maio o Benfica transfigura-se na anedota preferida dos portugueses - há um ano o minuto 92, este ano a maldição do húngaro. Entretanto, o SCP vangloria-se de nesta temporada europeia não ter sofrido qualquer derrota e o FCP congratula-se pela categórica forma como impulsionou o Sevilha para a final de Turim.


publicado por Zorro Danado às 20:00
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Sexta-feira, 9 de Maio de 2014
As diferenças que permitem (con)vencer

Três anos nos separam do último campeonato celebrado e parece que foi uma eternidade. Humilhados pelo Porto de Villas-Boas, incapazes de confirmar a nossa superioridade perante o Porto de Vítor Pereira, também eu me incluo nos descrentes em relação à continuidade de JJ no início da presente época. No momento da festa, penitencio-me pela falta de fé. No entanto, permito-me relevar as diferenças que marcaram a diferença este ano:

  1. Oblak é efetivamente uma mais-valia entre os postes - longilíneo e sóbrio, joga contra o Arouca como contra a Juventus, agarra o que tem de agarrar, rápido a sair de entre os postes, pouco dado a inventar, eventualmente o nosso melhor guarda-redes desde Preud'homme (que não chegou a ser campeão).
  2. Luisão e Garay estiveram num grau superlativo, a defender e a atacar, beneficiando de um meio-campo mais próximo da linha defensiva, tiveram menos espaço nas suas costas e domaram mesmo os avançados mais selvagens.
  3. Enzo Perez é uma máquina, em jeito de concertina uniu e estendeu a equipa, acelerou e travou, foi 6, 8 e 10.
  4. Gaitan e Markovic foram a magia, imprevisíveis, asseguraram a manutenção da nota artística.
  5. Rodrigo e Lima resolveram.

Que a festa continue.



publicado por Zorro Danado às 21:40
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